Aula 2

Nesta aula, os estudantes tiveram a oportunidade de acompanhar a leitura e debater acerca do texto clássico de um famoso filósofo francês do século vinte: DELEUZE, Gilles. “Post-Scriptum sobre as sociedades de controle”. Conversações 1972-1990. RJ: Ed. 34, 1992, pp. 219-226.

Disponível em:

DELEUZE, Gilles. Post-scriptum sobre as sociedades de controle

No texto, Gilles Deleuze dialoga com outro grande historiador e filósofo francês, Michel Foucault. Nossa sociedade moderna e capitalista é analisada a partir dos conceitos de sociedade disciplinar (Michel Foucault) e sociedade de controle (Gilles Deleuze). Para Foucault, a sociedade disciplinar é, por excelência, a sociedade ocidental moderna que constitui o Estado Moderno, sob o qual boa parte da humanidade vive até hoje. Para a constituição e eficácia do Estado Moderno, foram criadas instituições tais como, por exemplo, a família, a escola, a caserna (forças armadas), a fábrica, o hospital e o hospício. Os sujeitos, ao longo de suas vidas, podem transitar entre essas instituições que utilizam o conhecimento científico e suas várias especialidades (Ciência Moderna) e as tecnologias que foram criadas a partir dele para disciplinar os corpos e domesticar as mentes, garantindo a ordem e, acima de tudo, a produtividade que gera lucros apropriados por poucos a custa do trabalho de muitos. O Estado, visto dessa forma, não é neutro, muito menos as ciências e as tecnologias. Ele está apropriado por grupos minoritários de elite, que detém o poder político e econômico e que, sem muitas vezes nem se dar conta, o utilizam em nome de uma maioria para submetê-la e discipliná-la. Essas análises possuem uma visão crítica da sociedade industrial e da forma como esta naturalizou desigualdades e justificou uma certa maneira dos seres humanos dominarem uns aos outros e à natureza, que são históricas e nada naturais e, portanto, podem ser problematizadas, questionadas, transformadas.

Para Gilles Deleuze, atualmente vivemos um híbrido, uma mistura de organização dos grupos humanos entre a sociedade disciplinar e o que ele denomina de sociedade de controle. A disciplina não está mais apenas nas instituições, nos chefes, nas normas impostas pelo Estado Moderno e suas instituições. A disciplina se transformou em controle e auto-controle, e está principalmente dentro de cada indivíduo, que a incorpora. O controle e auto-controle é muito mais sutil e eficaz como forma de disciplinarização dos sujeitos que se submetem por vontade própria, sendo seu próprio chefe e, por inúmeras vezes, carrasco e algoz. O espírito de competividade e de vigilância de si mesmo e do outro mais próximo impera e os conhecimentos científicos e tecnológicos que hibridizam e configuram o que se chama na contemporaneidade de sociedade tecnocientífica. Vivemos num contexto que, para Deleuze, precisa ser problematizado, pois as tecnologias digitais como as da informática e o desenvolvimento dos meios de comunicação e informação estão à serviço do controle e da vigilância contínua dos sujeitos para trabalharem não mais na fábrica da sociedade industrial, na qual os operários tinham um chefe e um patrão para dominá-los, mas sim na “empresa”, que pode ser desterritorializada, em qualquer país ou na cabeça ou casa de cada um, característica da sociedade pós-industrial, do capitalismo financeiro, com seus donos acionistas invisíveis, que cobram sutilmente metas, produtividade, competitividade. Segundo este filósofo, ao invés de se perceberem como hiper-explorados e muitas vezes despidos da possibilidade de fazer suas próprias escolhas, gerir seu tempo livre, ter autonomia, muitos jovens estudantes estão pedindo por mais formações estágios que os capacitem a se tornaram a alma da “empresa”, mais competitivos e supostamente mais bem-sucedidos.

Perguntamos, nesta aula:

As tecnociências, tal como nos são ensinadas, impostas e naturalizadas em instituições disciplinares como a universidade – filha rica e bem-comportada da sociedade de controle hibridizada com a sociedade disciplinar – interessam, de fato, ao bem-estar da maioria dos sujeitos?

Se os conhecimentos científicos cada vez mais misturados com as tecnologias não são neutros nem estão disponíveis igualmente ao bem-estar da maioria das pessoas, como podemos problematizá-los no espaço acadêmico, buscando construir outros conhecimentos e tecnologias, bem como outras formas de apropriação desses saberes que sejam menos autoritários e exploradores dos sujeitos e destruidores do próprio ambiente que nos rodeia?

Como desnaturalizar, mostrar os interesses, as origens e os usos de determinados discursos sobre as ciências e tecnologias que parecem visar nossa “boa” formação humana e profissional mas que, de fato, nos transformam em peças descartáveis de reposição na lógica de produtividade capitalista para o lucro de poucos na sociedade (pós)industrial?

Como construir um auto-conhecimento, uma autonomia, uma criatividade individuais e coletivos capazes de gerarem outras formas de organizar a própria vida pessoal, se realizar profissionalmente de forma colaborativa com pessoas e gerações diferentes das nossas, e também aprender a ter uma visão crítica dos limites dos conhecimentos tecnocientíficos em curso, seus usos em prol de poucos, sua posição de agente principal na destruição do meio-ambiente e de qualidade de vida das pessoas por todo o mundo?

É possível viver de outro modo no contexto capitalista atual, em que o psicanalista Félix Guattari – parceiro de estudos de Gilles Deleuze – denominou como tipicamente esquizofrênico, no qual nossas atitudes cotidianas nos estudos, no mundo do trabalho e do consumo são agenciadas pelo marketing das “empresas” e dos donos do capitalismo financeiro e que nos fazem cair em contradição permanente com sentidos básicos de vida em comum, respeito ao outro, preservação do nosso próprio meio-ambiente, pondo em risco nossa saúde, o convívio de humanos em busca de felicidade e, sobretudo, os recursos naturais básicos para a vida das futuras gerações?

Além do texto provocativo de Gilles Deleuze, também foi distribuída na aula, para cada estudante a Revista E, do Sesc, com matéria interessante acerca da fotografia (uma tecnologia fundamental da contemporaneidade, seja no conhecimento científico, na vida cotidiana, nas artes, e também contendo dois artigos com olhares interdisciplinares sobre um exemplo de tema interessante que pode ser trabalhado em CTS: o carrocentrismo.

E você? Já abriu seu blog e se cadastrou no Tidia? Como as aulas, reflexões, temas e materiais das duas primeiras aulas podem contribuir com uma escrita pessoal que se inspire observando sua própria realidade, repassando suas próprias experiências a luz de novos conceitos e possibilitando ideias interessantes para seu tema de pesquisa? Além de suas impressões sobre as aulas e suas reflexões sobre seu cotidiano, seu blog precisa conter a escolha de um ou mais temas sobre o qual você precisa organizar documentos pesquisados, tais como livros, artigos, filmes, vídeos, músicas, fotografias já existentes e que também você mesmo comece a produzir sobre o tema.

Bom trabalho e até a próxima aula…

lifcamera

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