Ciências Modernas

Modernidades

Um dos aspectos mais importantes do debate sobre fundamentos filosóficos em arte, ciência, tecnologia, política e educação, passa pela compreensão do contexto histórico contemporâneo. Alguns estudiosos denominam nossa época mais recente e a que vivemos atualmente de modernidade, modernidade tardia, modernidade líquida, supermodernidade, hipermodernidade… Para eles, a modernidade se caracteriza pelo período de consolidação do capitalismo, suas instituições e seu modo de vida, generalizado para boa parte do mundo.

A modernidade teria sido responsável pelas transformações que levaram a quebra de modos de vida tradicionais, com o desenvolvimento da sociedade industrial, a emergência de novas classes sociais, novas formas de produção e de consumo, novas desigualdades sociais, políticas, culturais, econômicas, novas formas de fazer politica e de governar com a participação ou não de grandes massas populacionais, tais como as democracias ou as ditaduras, por meio das instituições do Estado Moderno.

Colonialismos

O colonialismo, entendido como o domínio político, econômico, cultural e social de algumas nações sobre outras, foi uma das principais características da modernidade, e trouxe inúmeras consequências para a história e a trajetória de povos de todo o mundo. Nações de origem européia ocuparam e colonizaram territórios africanos, americanos, orientais e passaram a contar uma história do mundo do seu ponto de vista, julgando e hierarquizando outras culturas a partir de sua própria cultura, valores, costumes, hábitos.

A civilização e a cultura ocidentais tornam-se, dessa forma, a principal referência de como todas as outras civilizações e culturas deveriam se apresentar, se quisessem ser consideradas “modernas”, “desenvolvidas”, “avançadas”. A construção e a defesa dessa visão gerou a destruição de muitas culturas, e até hoje acarreta em juízos de valor e preconceitos, que transformam diferenças em desigualdades.

Para refletir um pouco mais:

Pensar sobre a produção do conhecimento nas Humanidades hoje é algo necessário para profissionais e para pesquisadores. Para isso, é preciso contextualizar quais são as características do tempo em que você vive. E é isso que faremos nessa unidade.

Problema teórico-metodológico para refletir – Cada análise escrita por um pesquisador pode ser considerada uma narrativa. Assim, narrar, registrar e historiar se tornam sinônimos. Ao dizer isso, se garante o direito de cada um compor sua narrativa, ter sua própria visão de mundo e contar sua própria história.

Uma explicação interessante a esse respeito encontra-se na narrativa de um historiador, no livro A história repensada, de Keith Jenkins (2005). Segundo a historiadora brasileira Margareth Rago, este historiador inglês – numa tentativa de fazer com que conhecêssemos um pouco mais os avanços e recuos ocorridos nessa área nas últimas décadas – afirmou que há muito tempo, por volta do século XVIII, as hierarquias sociais pré-modernas baseavam-se predominantemente no que se consideravam valores a ela inerentes, que constituíam sua essência. Tais valores como divindade, sangue, raça, estirpe, determinavam a posição de um ser humano desde seu nascimento, definindo o que ele deveria conhecer como sendo “seu lugar” na sociedade, sem que este considerasse importante questionar esses valores e esse lugar.

Porém, foram justamente essas ordens naturais, legitimadoras de monarquias, que a burguesia comercial, financeira e industrial enfraqueceu e destruiu. Assim, a burguesia começou a produzir a tudo e a si mesma. Viria expressar suas ambições mediante a idéia de utilidade, de acordo com a qual os seres humanos deveriam ter valor pelo mérito, a ser conquistado, e localizar seu valor em objetos exteriores, como a propriedade privada. O liberalismo, valorizando a liberdade de iniciativa do indivíduo burguês, expressava uma nova teoria sobre os rumos que a história deveria seguir cujo capitalismo significava a concretização desse modo de pensar e de atuar na sociedade.

Mas, o que é mesmo Liberalismo?

Uma abordagem abrangente sobre o que se trata o pensamento liberal, está presente em “Liberalismo”, no Dicionário dos Conceitos Históricos. Veja só:

“Em pleno século XXI, pensar a relação entre os indivíduos e o Estado, e a própria noção de Estado e de indivíduo como cidadão, é um exercício necessário à constituição de práticas políticas mais humanas. Exercício que implica o estabelecimento da relação passado-presente no que concerne, por exemplo, aos princípios liberais que norteiam hoje a maioria dos Estados do Ocidente. (…) O liberalismo, em sua forma atual rebatizada como neoliberalismo, é a ideologia política do mundo globalizado. É ele que advoga a abertura de mercados, o livre fluxo de capitais e os investimentos privados, a redução das responsabilidades sociais do Estado e a própria diminuição deste como mecanismo administrativo (tido em geral como dispendioso e antieconômico), em nome da privatização. O neoliberalismo é a reafirmação dos valores liberais originados do liberalismo econômico do século XIX. (…) Precisamos ainda ficar alertas, pois os discursos, incorporados pelo senso comum, tendem a associar o liberalismo/neoliberalismo à democracia, à prosperidade econômica e à igualdade, o que configura uma postura a-histórica e muitas vezes inverossímil, porque liberalismo, democracia e igualdade social não são sinônimos nem sempre andaram juntos. Na verdade, o neoliberalismo chega mesmo a pregar a desigualdade social. (SILVA e SILVA, 2005, p. 257-261)

Além dessa percepção, conheça mais sobre o liberalismo e como ele influencia o paradigma científico, ou seja, o modelo interpretativo predominante sobre o que é “ciência”, lendo o livro Um discurso sobre as ciências, do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. Numa das partes desse livro, o autor discute:

“… uma forma de conhecimento, assente numa tal visão de mundo, tenha vindo a constituir um dos pilares da idéia de progresso que ganha corpo no pensamento europeu a partir do século XVIII e que é o grande sinal intelectual da ascensão da burguesia. (…) Uma forma de conhecimento que se pretende utilitário e funcional, reconhecido menos pela capacidade de compreender profundamente o real do que pela capacidade de o dominar e transformar. No plano social, é esse também o horizonte cognitivo mais adequado aos interesses da burguesia ascendente que via na sociedade em que começava a dominar o estágio final da evolução da humanidade.” (SANTOS, 2005, p. 31-32)

Entretanto, os trabalhadores começaram a usar contra a burguesia a mesma idéia de utilidade que esta tinha usado contra a aristocracia. Foi o filósofo Karl Marx quem, no século XIX, elaborou para as classes trabalhadoras uma compreensão filosófica e histórica de sua posição. Isso viria a produzir uma ideologia que não valorizava o ganho de alguma propriedade pela classe trabalhadora, pois o argumento era que o caminho para a liberdade real estava na abolição da propriedade. Afinal, o que poderia ser mais valioso para os trabalhadores do que si próprios, a única coisa que realmente possuíam? Nessa perspectiva, os seres humanos adquiriam valor simplesmente por estarem vivos.

Para um panorama geral das vertentes do pensamento marxista, trazemos a seguir para você ler o verbete “Marxismo” do Dicionário dos Conceitos Históricos:

“A teoria marxista, de profunda inspiração filosófica, trouxe inovações para se pensar o homem e o mundo no século XIX. Marx foi o primeiro a mostrar que o significado de uma teoria só pode ser compreendido em relação à prática histórica correspondente. Uma teoria não pode ser pensada e entendida sem correspondência com o contexto histórico. Toda teoria deve, portanto, estar enraizada na realidade histórica e dizer alguma coisa que possa transformá-la. Dessa forma, Marx buscou conciliar reflexão filosófica e prática política, teoria e práxis (entendida como a ação humana que transforma o mundo e transforma a si mesma). Em direção a uma sociedade sem exploradores ou explorados, o projeto marxista incluía a união da Filosofia, da Política e do movimento social a classe explorada para se construir uma síntese verdadeira, uma sociedade superior em que cada um desses elementos seria transformado.” (SILVA e SILVA, 2005, p. 267-271)

Marx relacionou o significado das teorias à prática histórica, social e política. Mas, de fato, como a teoria marxista aborda a realidade social? Veja a seguir a continuidade do verbete “Marxismo” que traz esses elementos para o seu entendimento:

“A teoria marxista aborda a realidade sob vários prismas: o filosófico, o histórico, o social e o econômico. Essa realidade é pensada não de forma fixa, mas em movimento, em sua mudança. Daí que a grande preocupação filosófica de Marx era o devenir histórico, ou seja, a transformação. (…)”(SILVA e SILVA, 2005, p. 267-271)

A teoria marxista tem sua importância nos estudos das sociedades contemporâneas e na produção do conhecimento. Mas, assim como as teorias em geral, ele é alvo de críticas que o vêem como uma das narrativas que explicam a sociedade como um grande sistema, uma metanarrativa. Como então o marxismo é visto sob uma percepção crítica?

“Nas últimas décadas do século XX, o marxismo entrou em crise como de resto todo o pensamento científico da modernidade. Sendo o marxismo um projeto de explicação racional, herdeiro do Iluminismo e da modernidade, foi um dos principais alvos da crítica aos chamados grandes sistemas explicativos da realidade. A crise do marxismo é a crise da própria Razão. Hoje, a maioria dos pesquisadores evita tentar explicar toda uma realidade histórica, como faziam aqueles vinculados ao marxismo e ao materialismo histórico.” (SILVA e SILVA, 2005, p. 267-271)

E então, como fica a discussão do marxismo no trabalho do pesquisador em Humanidades? Ele é referência crítica obrigatória para os que estudam temas como luta de classes, revoluções, política, economia, Estados etc. O profissional precisa ter uma postura crítica do chamado marxismo dogmático, buscando problematizar conceitos e análises que pretendam se tornar verdades absolutas, pois os problemas teóricos-metodológicos propostos por Marx também são fruto do contexto capitalista em que este autor viveu, no século XIX, alguns dos quais têm influência até os dias atuais.

Para conhecer melhor as idéias de Karl Marx, leia o Manifesto do Partido Comunista, escrito em parceria com Friedrich Engels, em 1848, e disponível na íntegra na internet. Aqui um trecho dele para você ir construindo uma compreensão acerca da temática:

“A história de todas as sociedades que existiram até aos nossos dias é a história da luta de classes. Homens livres e escravos, patrícios e plebeus, senhores e servos, mestres e oficiais, numa palavra: opressores e oprimidos, em oposição constante, travaram uma guerra ininterrupta, ora aberta, ora dissimulada, uma guerra que acaba sempre pela transformação revolucionária de toda a sociedade, ou pela destruição das duas classes beligerantes. Nas primeiras épocas históricas, constatamos, quase por toda a parte, uma organização completa da sociedade em classes distintas, uma escala gradual de condições sociais: na Roma antiga, encontramos patrícios, cavaleiros plebeus e escravos; na Idade Média, senhores feudais, vassalos, mestres, oficiais e servos, e, além disso, em quase todas estas classes encontramos graduações especiais. A sociedade burguesa moderna, que saiu das ruínas da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de classes. Apenas substituiu as velhas classes, as velhas condições de opressão, as velhas formas de luta por outras novas. Entretanto, o caráter distintivo da nossa época, da época da burguesia, é o de ter simplificado os antagonismos de classes. A sociedade divide-se cada vez mais em dois vastos campos inimigos, em duas grandes classes diametralmente opostas: a burguesia e o proletariado.” (MARX & ENGELS, 1848)

Essas idéias fizeram com que muitas pessoas acreditassem que, num futuro próximo, estava a perspectiva de desaparecimento do capitalismo e de um mundo vivido em comum e com autêntica liberdade humana, cujo sistema econômico social seria denominado de maneira geral de socialista ou comunista.

É sabido que a Revolução Socialista na União Soviética, ocorrida em 1917, deu início a esse experimento. Contudo, desde o começo, as ambições universalizantes de substituição do capitalismo pelo socialismo foram contrariadas. A proposta universal do socialismo marxista se modificou em variantes nacionais e seus propósitos emancipatórios e libertadores da humanidade foram desvirtuados por meios ditatoriais. O socialismo real ajudou a desconstruir seu próprio potencial, tornando cada vez mais pessimista o próprio marxismo, que um dia tinha sido a mais otimista das teorias sobre os rumos que a história deveria seguir para que o ser humano se desenvolvesse plenamente numa coletividade.

Jenkins (2005) afirma que, enquanto isso, no Ocidente, viveram-se os traumas decorrentes das duas guerras mundiais iniciadas na Europa; das crises econômicas; do fascismo; do nazismo e da descolonização. Somaram-se as críticas ao capitalismo apresentadas pelo marxismo ocidental e mais recentemente pelas feministas que, finalmente, demoliram as derradeiras teorias que alicerçavam as noções de progresso liberal, de harmonia pela competição, da crença otimista na racionalidade do homem burguês.

Nesse contexto, o capitalismo teve que achar outra forma de valorização. E então encontrou essa forma de valorização nas forças do mercado, produzindo novas teorias, numa situação de alta produtividade econômica pós-1950. Passou a mostrar aquilo que na realidade sempre tinha sustentado o capitalismo. Mas que ele considerava arriscado expor de forma explícita enquanto o socialismo real ainda representava uma ameaça, obrigando-o a adotar algumas políticas protetoras para os indivíduos, como, por exemplo, a criação da previdência social, presente em vários países.

A valorização das forças do mercado deu prioridade à escolha do consumidor, trazendo para o primeiro plano o utilitarismo (isto é, o praticismo e o pragmatismo) e uma visão relativista dos valores e das funções das coisas de acordo com sua utilização. Pois, no mercado aberto, as mercadorias não têm um valor próprio de troca, visto que seu valor reside naquilo pelo que podem ser trocadas.

Utilitarismo: Doutrina moral cujos principais representantes são os ingleses Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873), e que põe como fundamento das ações humanas a busca egoísta do prazer individual, do qual deverá resultar maior felicidade para maior número de pessoas, pois se admite a possibilidade dum equilíbrio racional entre os interesses individuais. (FERREIRA, 2004)

Atenção – Nessa sociedade vista como um grande mercado, as pessoas também assumem aspecto de mercadoria, de objetos, e tentam encontrar seu valor em relações externas a si mesmas, relações de consumo, de compra e venda, de negociação e troca.

Fonte: http://problemasmetodologicos.wordpress.com/fazendo-humanidades-hoje/o-fazer-das-humanidades-no-mundo-contemporaneo/

Ciências Modernas

O filósofo francês Michel Foucault, que nos ajuda a compreender como operam as Ciências Modernas na construção e legitimação do capitalismo, e da modernidade, desconstruiu o conceito de disciplina, tentando evidenciar o que está por trás dessa denominação:

“(…) uma disciplina se define por um domínio de objetos, um conjunto de métodos, um corpus de proposições consideradas verdadeiras, um jogo de regras e de definições, de técnicas e de instrumentos: tudo isto constitui uma espécie de sistema anônimo à disposição de quem quer ou pode servir-se dele, sem que seu sentido ou sua validade estejam ligados a quem sucedeu ser seu inventor. (…) Para que haja disciplina é preciso, pois, que haja possibilidade de formular, e de formular indefinidamente, proposições novas. (…) uma disciplina não é a soma de tudo o que pode ser dito de verdadeiro sobre alguma coisa; não é nem mesmo o conjunto de tudo o que pode ser aceito, a propósito de um mesmo dado, em virtude de um princípio de coerência ou de sistematicidade. (…) No interior de seus limites, cada disciplina reconhece proposições verdadeiras e falsas. (…) Em resumo, uma proposição deve preencher exigências complexas e pesadas para poder pertencer ao conjunto de uma disciplina. (…) A medicina não é constituída de tudo o que se pode dizer de verdadeiro sobre a doença; a botânica não pode ser definida pela soma de todas as verdades que concerne às plantas. (…) como qualquer outra disciplina são feitas tanto de erros como de verdades (…) A disciplina é um princípio de controle da produção do discurso”. (FOUCAULT, 2004, p. 30-36)

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