Ciências Pós-Modernas

Pós-modernidades

Já a pós-modernidade (alguns preferem pós-modernismo, mas este termo tem usos específicos como referência a estilo/período/movimento artístico-cultural) também refere-se ao tempo presente imediato em que vivemos, marcado pelo aprofundamento – e, para alguns pensadores, pela ruptura – de algumas características presentes na modernidade. Com a revolução informacional, surgem novas tecnologias que mudam processos de produção, eliminando velhas ocupações e criando outras, exigindo trabalhadores mais qualificados, flexíveis, e em menor número, gerando simultaneamente aumento da produtividade e desemprego, desigualdades e exclusão.

Por outro lado, por meio das tecnologias de informação e comunicação, parte da humanidade circula e se conecta como nunca. As tecnologias de transporte e comunicação aceleram a percepção do tempo e suprimem distâncias, modificando a noção de espaço. A sociedade pós-moderna é a sociedade dos indivíduos em rede, que informam em tempo real o que acontece simultaneamente pelo mundo, rompendo com a visão de que alguns lugares são centrais e outros periféricos, pois cria novos centros e novas periferias a cada minuto, num fluxo ininterrupto de mudanças.

Pós-colonialismos

O termo pós-colonialismo refere-se, portanto, ao contexto contemporâneo que vivemos, no qual as nações de origem européia deixam de dominar explicitamente outros povos, que declaram independência e constroem novas nações, com seus próprios governos. Esse processo de mudança atravessou o século XX e chega à atualidade, em que muitas desigualdades legitimadas por diferenças culturais – como, por exemplo, o racismo, que afirmava que alguns sujeitos e grupos são “superiores” a outros – são radicalmente questionadas.

Para refletir um pouco mais:

Autores, como o geógrafo de origem britânica David Harvey, pensando sobre o cotidiano, chegam a afirmar que todo o entorno da vida foi organizado para reforçar o consumo e o capitalismo. Sendo assim, pegando um de seus exemplos:

(…) a televisão é, ela mesma, um produto do capitalismo avançado e, como tal, tem de ser vista no contexto da promoção de uma cultura do consumismo. Isso dirige a nossa atenção para a produção de necessidade e desejos, para a mobilização do desejo e da fantasia, para a política da distração como parte do impulso para manter nos mercados de consumo uma demanda capaz de conservar a lucratividade da produção capitalista. (HARVEY, 1994, p.63-64)

Os valores privados e públicos são afetados. Passa a haver uma sobreposição entre as esferas do público e do privado de modo que a ética torna-se moral privada, e a política, exercício técnico. Os princípios que orientam o comportamento humano – ou seja, a ética – se tornam personalizados e voltados apenas para si mesmos, autocentrados, narcisistas. Tudo torna-se uma questão de gosto e de estilo de vida, sendo relativo e livre de regras.

“Cara, você pode o que quiser!” Você já teve a sensação de que todas as propagandas e as mercadorias que são apresentadas reforçam essa noção como sendo própria de todos os indivíduos do nosso tempo presente? Mas, afinal, essa idéia corresponde ao modo de vida de que grupos específicos, que tentam generalizar seus discursos como se fossem de todos?

Nesse embate parece estar embutida a idéia de que nenhum valor ou princípio que possa orientar o comportamento humano passa pelo cotidiano. Mas como isso poderia acontecer? Se não se produzir conhecimento para resolver as questões que nos são colocadas cotidianamente, para que servirá esse saber produzido?

Esse relativismo e esse ceticismo – uma idéia segundo a qual o espírito humano não pode atingir nenhuma certeza a respeito da verdade, o que resulta em um procedimento intelectual de dúvida permanente e na abdicação, por inata incapacidade, de uma compreensão absoluta do real – afetam também a situação das teorias e das práticas da produção de todo tipo de conhecimento, incluindo a História e as Ciências Sociais.

Assim, restaram apenas posições, perspectivas, modelos, ângulos, paradigmas. Impera o que é chamado de um pragmatismo flexível – quer dizer, o que é bom é o que dá lucro, resultando numa série de práticas egoístas – onde os que produzem algum tipo de saber, deliberadamente, só pensam em si mesmos e nos seus interesses em termos de valor de mercado.

Numa cultura dessa forma banalizada pelo relativismo, qualquer versão considerada de esquerda, da teoria marxista que busque a emancipação da humanidade, já é vista como fracassada por conta do insucesso dos regimes do socialismo real. Ela já se torna confusa, até porque tinha a classe trabalhadora, ou seja, o proletariado, como protagonistas desse projeto histórico, agora considerado em virtual desaparecimento.

Para muitos estudiosos, como Jenkins (2005), o proletariado foi decomposto, assim como a sociedade industrial que possibilitou seu aparecimento. Em seu lugar, agora existe uma série de coisas diferentes: um pequeno núcleo de operários, uma nova (ou quase nova) classe de marginalizados e os agrupamentos bastante instáveis de (alguns) jovens, desempregados, negros, mulheres, homossexuais, ambientalistas, dentre outros.

Ao se realizar um balanço histórico contemporâneo: dessa época que se poderia chamar de pós-tudo (pós-liberal, pós-ocidental, pós-indústria pesada, pós-marxista, pós-moderna, pós-colonialista), as velhas teorias (eurocêntricas, positivistas, patriarcais, lineares) que legitimavam os velhos centros vão de mal a pior. São chamadas de metanarrativas, consideradas nada promissoras, parecendo inverossímeis do ponto de vista dos críticos do início do século XXI. Jenkins (2005) ironiza ao dizer: “Imagine se alguém vai acreditar numa coisa dessas!”.

Acompanhe, a seguir, alguns entendimentos dessas questões segundo o Dicionário de Conceitos Históricos:

“A pós-modernidade é assunto multidisciplinar: artistas, cientistas, filósofos, entre outros, refletem sobre esse tema. Mas para alguns desses pensadores o termo exprime coisas tão diferentes que explica, na verdade, muito pouco. No entanto, mesmo seus mais ferrenhos críticos parecem concordar com a existência de algumas características presentes em todos os discursos que se dizem pós-modernos. A principal delas é a crítica aos valores da sociedade ocidental, oriundos do Iluminismo, do racionalismo e da Revolução Industrial. (…) a pós-modernidade é uma mistura eclética de coisas bastante diversas, fruto da sociedade consumidora de serviços, despolitizada e individualista.” (SILVA & SILVA, 2005, p. 338-342)

Uma das características das abordagens pós-modernas, a perda de sentido da realidade, é discutida por teóricos como Homi Babba. Veja a seguir essa discussão no verbete do Dicionário que estamos utilizando:

“Mas como muitas são as abordagens pós-modernas, essa perda de sentido da realidade não se encontra em todas. Para o teórico da cultura Homi Bhabba, por exemplo, se a pós-modernidade for apenas a crítica da modernidade – esta entendida como o discurso racional iluminista –, ela é inútil. Para Bhabba, a crítica pós-moderna precisa ultrapassar a simples desconstrução dos valores da modernidade e incorporar novas formas de saber, como o fim das idéias etnocêntricas e a possibilidade de se escutar outras vozes e histórias, principalmente dos grupos minoritários.” (SILVA & SILVA, 2005, p. 338-342)

Para outro estudioso do tema, Michel Zaidan, a pós-modernidade é definida a partir de influências das concepções irracionalistas de história. Veja:

“Já o cientista político Michel Zaidan considera que a pós-modernidade tem grande influência sobre as concepções irracionalistas de história, influenciadas por Michel Foucault ou Walter Benjamin, ou ainda pela Nova História francesa. Essa produção seria irracionalista por não acreditar que se pode explicar a realidade e permanecer estudando apenas os discursos produzidos na História.” (SILVA & SILVA, 2005, p. 338-342)

Como fica essa questão da pós-modernidade? Como tratá-la??

“(…) dificilmente o professor de História pode escapar de se defrontar com esse problema atual: o que é a pós-modernidade? Como não há uma resposta fácil para essa questão, é importante que o educador busque as diferentes formas nas quais aparece esse discurso pós-moderno, inclusive a crítica à existência de uma pós-modernidade. (…) O professor hoje depara com estudantes que nasceram e são criados sob o constante bombardeio de discursos e produções que apresentam uma linguagem pós-moderna (…) razão pela qual se faz necessário que ele reflita sobre elas, para melhor trabalhar com determinadas linguagens na sala de aula, desde a já usual linguagem cinematográfica até as histórias em quadrinhos.” (SILVA & SILVA, 2005, p. 338-342)

O pensador estadunidense, Fredric Jameson (2001), crítico de nossa sociedade e cultura contemporâneas, afirma que possivelmente nenhuma formação social que conheçamos tenha erradicado tão sistematicamente quanto o capitalismo neoliberal a idéia de valores universais inerentes ao desenvolvimento da história da humanidade. E isso, para ele, não ocorreu por meio da escolha dos sujeitos, mas da própria lógica cultural do que alguns chamam de capitalismo tardio, outros de globalização. Ou então de modernidade tardia, modernidade líquida, modernidade autoreflexiva, hipermodernidade, supermodernidade e – por fim, uma das mais polêmicas – de pós-modernidade.

E o pós-moderno???

Conheça um pouco mais sobre o termo pós-moderno a partir das reflexões de Terry Eagleton (1998), filósofo e crítico literário marxista, no livro As ilusões do pós-modernismo:

“A palavra pós-modernismo geralmente refere-se a uma forma de cultura contemporânea, enquanto que o termo pós-modernidade alude a um período histórico específico. Pós-modernidade é um estilo de pensamento que duvida das noções clássicas de verdade, razão, identidade, e objetividade, da idéia de progresso e emancipação universais, de estruturas únicas, grandes narrativas ou fundamentos definitivos de explicação […] Pós-modernismo é um estilo de cultura que reflete alguma coisa dessa mudança de uma época, numa arte pluralista, superficial, descentralizada, infundada, auto-reflexiva, divertida, derivativa, eclética, que torna indistintas as fronteiras entre cultura ‘alta’ e ‘popular’, bem como entre arte e experiência cotidiana.” (EAGLETON in FIGUEIREDO, 2005, P.369)

Mais informações sobre a idéia de pós-modernidade e seu histórico, bem como uma pequena bibliografia, veja o verbete correspondente na famosa enciclopédia virtual Wikipédia. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%B3s-modernismo

Ciências Pós-Modernas

As definições desses termos são difíceis de precisar. Isto porque todos os que as criaram concordam que o que caracteriza o presente é o fato de que nada mais é fixo ou sólido. E ainda, nada mais é possível de ser estudado apenas de forma geral, as explicações devem também ser buscadas no específico. O que já prejudica tentativas de definições – geralmente abrangentes e fixas -, sendo que alguns colocam em dúvida até mesmo a validade de algumas dessas interpretações.

Problema teórico-metodológico para refletir – Isso tudo é só para complicar? Por que existem várias denominações (capitalismo tardio, globalização, modernidade tardia, modernidade líquida, modernidade autoreflexiva, hipermodernidade, supermodernidade, pós-modernismo…) para o mesmo contexto histórico contemporâneo? Na seqüência deste estudo, você irá constatar que, por trás delas, há interpretações comuns e alguns olhares diferentes sobre o presente, que variam de acordo com a abordagem de seus autores.

Uma definição de pós-modernidade pode ser atribuída ao filósofo francês Jean-François Lyotard, em O pós-moderno (1988), que parte da análise do mundo ocidental em que vivemos nos termos que colocamos anteriormente. Considera-o como uma formação social na qual, sob o impacto do fim da predominância da influência religiosa, da democratização, da informatização e do consumismo, o mapa e o status do conhecimento estão sendo retraçados e redescritos.

Essa mesma perspectiva é compartilhada por autores como o crítico literário e teórico marxista, Fredric Jameson (2001), e o sociólogo inglês, Anthony Giddens (1991, 2001) que usam as denominações capitalismo tardio ou modernidade tardia para enfatizar a decadência da sociedade capitalista.

Igualmente, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (2001) defende a idéia de uma modernidade líquida, ressaltando seus aspectos de instabilidade, insegurança, fluidez, gerados pelas mudanças velozes e implacáveis da sociedade capitalista. O filósofo francês Gilles Lipovetsky (2004) define nosso tempo como sendo o da hipermodernidade, caracterizando-o como típico da intensificação do liberalismo, da mercantilização, da exploração utilitarista e instrumentalizada da razão e do individualismo exacerbado.

Na perspectiva do antropólogo francês Marc Auge (2004), que denomina de supermodernidade o contexto histórico contemporâneo, destacam-se traços como a proliferação dos não-lugares (supermercados, shopping centers, aeroportos, rodoviárias). Estes são espaços de não-vivência, mas apenas de consumo e passagem dos sujeitos, um mundo provisório e efêmero, comprometido com o transitório e com a solidão. Para ele, os não-lugares são a medida de uma época que se caracteriza pelo excesso de informações e de fatos a serem compreendidos; pela superabundância espacial, com a velocidade dos meios de transporte que pode levar o indivíduo a qualquer parte do mundo em poucas horas; e pela individualização das referências, com a publicidade e a história aparentemente voltada para cada sujeito, mas contraditoriamente homogeneizadora de todos.

Estes estudiosos, entre muitos, enfatizam aspectos comuns e particulares de um mesmo tempo presente que, no que diz respeito ao campo de produção do conhecimento, poder ser caracterizado como o da “morte dos centros” e da “incredulidade ante as metanarrativas”. Mas afinal, o que significam essas coisas?

Uma das possibilidades de resposta diz que “Morte dos centros” significa que todos aqueles antigos quadros de referência que pressupunham a posição privilegiada de diversos centros (anglocêntricas, eurocêntricas, etnocêntricas, sexistas) já não são considerados legítimos e naturais (ou melhor, legítimos porque tidos como naturais). Mas passam eles mesmos a serem entendidos também como, temporários, parciais… Assim, passam a ser vistos como úteis para formular interesses que não são universais, e sim, representam um ponto de vista particular.

E quanto à “incredulidade ante as metanarrativas”, em outras palavras, é o mesmo que dizer que perderam vitalidade as grandes narrativas estruturadoras – como a liberal e a marxista, comentadas aqui – que deram significados à evolução ocidental. Após o fim da predominância das explicações religiosas ou da metanarrativa teológica sobre o mundo, ocorreu um questionamento de todas as outras formas explicativas predominantes, que se baseavam na razão e na ciência para se dizerem como as melhores ou verdadeiramente válidas.

Esse fenômeno do final do século XIX e início do século XX tornou problemáticos todos aqueles discursos que se fundamentavam e ainda se fundamentam nessas explicações ditas racionais e científicas com pretensão a se assumiram como verdade absoluta. Foram desconstruídos: o projeto do Iluminismo e os vários programas de progresso e modernidade que dele decorreram, identificados com idéias de reforma e de emancipação do indivíduo que se manifestavam, por exemplo, no humanismo, liberalismo, marxismo, nazismo, fascismo etc.

Atenção – Dessa maneira, as denominações para a crise ou a falência do projeto iluminista da modernidade são expressões gerais dessa situação. Não são um movimento unificado, nem tendências que simplesmente possam ser definidas num espectro político como de centro, de esquerda ou de direita.

Em todas as tendências os pensadores tiveram que, conforme as necessidades, repensar – desconstruir – e muitas vezes recriar seus discursos disciplinares – Filosofia, Política, Arte, Literatura, Lingüística, Antropologia, Sociologia, Comunicação, Economia, História… – revendo as bases de suas posições para se ajustarem às reviravoltas do tempo presente que atravessam desde o campo socioeconômico e político até o cultural.

As reavaliações produzidas por esse movimento, embora conduzidas por motivos diversos e até opostos, chegaram à conclusões semelhantes. Enquanto se esforçavam para fundamentar suas posições, esses pensadores perceberam que a solidez intocável de suas teorias e metodologias não existia nem para eles, nem para ninguém mais.

Para ampliar o seu ponto de vista, veja como esses aspectos se refletem na literatura de Borges:

O escritor argentino Jorge Luis Borges escreveu vários textos literários que ficaram famosos por criticarem o discurso dos intelectuais que tentavam afirmar verdades absolutas em suas áreas de conhecimento. Como Borges fez isso? Numa escrita simultaneamente verossímil e fantástica, ele fazia críticas de autores, livros e enciclopédias que não existiam, utilizando as mesmas práticas discursivas empregadas por críticos literários, historiadores ou outros intelectuais! Dessa forma, quando lemos seus textos, sabemos que são construções ficcionais que utilizaram a linguagem científica, histórica. Assim, fica evidente também que os escritos de outros, sejam cientistas ou filósofos, são igualmente construídos, legitimados por referências e citações de fontes e outros autores… Para problematizar a ciência como uma construção histórica e discursiva, uma professora de História da Ciência escolheu um dos contos mais brilhantes de Borges, deixando-o para que os estudantes lessem e debatessem numa próxima aula. O conto “Pierre Menard, autor de Quixote” faz o balanço da obra de um autor inexistente, inclusive com citações e referências bibliográficas também inexistentes. Porém, qual não foi a surpresa da professora quando vários de seus alunos, convencidos pela ficção, reclamaram da ausência de obras de Pierre Menard na biblioteca da Universidade! E assim a professora teve a oportunidade de debater como os discursos da ciência e da história são construídos e quais são as diversas estratégias existentes nos textos para nos convencer de teorias, conceitos e interpretações da realidade…

Agora, reflita também sobre um outro conto desse escritor:

“A Biblioteca de Babel é um conto de Jorge Luis Borges, inserido no livro Ficciones (Ficções), de 1944. Este conto, essencialmente metafísico, fala de uma realidade em que o mundo é constituído por uma biblioteca infindável, abrigando uma infinidade de livros. O narrador, um dos muitos bibliotecários, supõe que os volumes da biblioteca contêm todas as possibilidades da realidade. Alguns não fazem o menor sentido, ou o fazem numa língua há muito desconhecida. Outros são meras repetições de uma mesma palavra. Busca-se incessantemente alguém que saiba decifrar as mensagens contidas nos misteriosos volumes, que seria o correspondente a um deus.

Entre as várias interpretações possíveis do conto de Jorge Luis Borges, uma dá conta que se trata de uma grande metáfora em que mundo e literatura se confundem. Ler um texto é tentar decifrá-lo, mas se considerarmos que o próprio mundo está impregnado de linguagem, a própria realidade pode ser considerada como uma grande biblioteca cheia de textos à espera de quem os decifre.”

Fonte disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Biblioteca_de_Babel, acessado em 10/11/2006.

Hipertexto – Vários textos de Jorge Luis Borges podem ser lidos na Internet. Veja, por exemplo, em: http://www.fcsh.unl.pt/borgesjorgeluis/textos_borgesjorgeluis/textos7.htm

O filósofo e historiador Michel Foucault, com seus trabalhos sobre as práticas discursivas, trouxe a possibilidade de compreender todos os saberes disciplinares como discursos historicamente construídos e que, portanto, deveriam ser também desconstruídos. Dessa forma, os pressupostos intelectuais dominantes de nosso tempo, como conseqüência desse processo de reavalização e de desconstrução da produção dos conhecimentos, forjaram as generalizações do ceticismo, isto é, a ausência de qualquer certeza absoluta, e do niilismo – ponto de vista que considera que as crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência.

Essas idéias permearam historicamente nossa “tradição ocidental”. Porém, o que antes era descontínuo e periférico, hoje abarca nossa cultura e é acolhido com satisfação. Vários intelectuais, inclusive os historiadores, ao utilizarem de modo crítico a amplamente reconhecida inadequação da realidade aos conceitos provindos das teorias atualmente existentes, negam-se a sentir nostalgias daqueles centros e metanarrativas e seus beneficiários.

Atenção – O termo desconstrução foi proposto por Jacques Derrida, um filosofo francês, nos anos 1960, designando uma forma de análise crítica dos próprios pressupostos e conceitos filosóficos. Assim, Derrida fez uma “desconstrução” da forma que o ocidente via o restante do mundo, fazendo uma dura crítica à tendência para o logocentrismo, e a outros muitos conceitos que essa tradição da construção do conhecimento tinha estabelecido como certa e fixa. Ao desconstruir textos e teorias que se consideravam definitivos e únicos, portadores de verdades inquestionáveis, o filósofo buscou encorajar a pluralidade de discursos, legitimando a não existência de uma única verdade ou interpretação, possibilitando a disseminação de possíveis e novas verdades.

Assim, o termo desconstrução não pode ser lido como sinônimo de destruição. É sim método que prevê a desmontagem ou a decomposição dos escritos para descobrir o que está velado, revelando significados que estavam ocultos ou encobertos. Derrida foi muito criticado por suas idéias, pois ao propor essa forma de trabalho, ameaçou a existência de uma leitura verdadeira do mundo, tornando toda análise uma das leituras possíveis, mas nunca a única correta.

Saiba mais

Para saber mais sobre a biografia de Jacques Derrida e a noção de desconstrução leia os verbetes correspondentes na Enciclopédia Virtual Wikipédia. Disponível em:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Desconstru%C3%A7%C3%A3o

e também em http://pt.wikipedia.org/wiki/Derrida. Ou ainda no e-dicionário de termos literários: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/D/desconstrucao.htm.

Para saber mais sobre o pensamento de Jacques Derrida, leia os livros de DERRIDA & BENNINGTON, 1996; DERRIDA & ROUDINESCO, 2004; e NASCIMENTO, 2005.

Como pode se ver desde que Derrida apresentou seus pensamentos, os discursos produzidos pelas áreas de conhecimento foram chamados a serem construídos de forma diferenciada, evidenciando seus próprios processos de construção e a parcialidade e a incompletude inerente dos saberes criados. Evando Nascimento, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, afirmou a respeito das idéias de Derrida:

“Por um lado, podemos pensar que o mundo teria sido desconstruído de fato por todo o processo que consiste em não ser mais possível acreditar que um único centro, como ponto situável no tempo e no espaço, organize a realidade das coisas. Esse processo de descentramento foi algo inerente ao século XX e ocorreu nos diversos planos da cultura, sobretudo na cultura ocidental, que tinha sido construída sobre sólidos centramentos.” (RODRIGUES, 2005)

Também o adido cultural do consulado francês, Jean-Paul Lefèvre, afirmou:

“A desconstrução não é demolição, é refletir sobre o processo e levar a crítica aos mínimos detalhes. Essa forma de reflexão nos ajuda a viver momentos tão fortes quanto os que atravessamos agora.” (SILVA, 2005)

Repetimos aqui uma citação do filósofo francês Michel Foucault, dialogando com Derrida desconstruiu o conceito de disciplina, que agora poderá ter outra leitura atenta, a luz da noção do trabalho que as ciências pós-modernas fazem, que é tentar explicar e interpretar como elas próprias operam e funcionam, sem considerá-las como “verdades únicas” transparentes e neutras:

“(…) uma disciplina se define por um domínio de objetos, um conjunto de métodos, um corpus de proposições consideradas verdadeiras, um jogo de regras e de definições, de técnicas e de instrumentos: tudo isto constitui uma espécie de sistema anônimo à disposição de quem quer ou pode servir-se dele, sem que seu sentido ou sua validade estejam ligados a quem sucedeu ser seu inventor. (…) Para que haja disciplina é preciso, pois, que haja possibilidade de formular, e de formular indefinidamente, proposições novas. (…) uma disciplina não é a soma de tudo o que pode ser dito de verdadeiro sobre alguma coisa; não é nem mesmo o conjunto de tudo o que pode ser aceito, a propósito de um mesmo dado, em virtude de um princípio de coerência ou de sistematicidade. (…) No interior de seus limites, cada disciplina reconhece proposições verdadeiras e falsas. (…) Em resumo, uma proposição deve preencher exigências complexas e pesadas para poder pertencer ao conjunto de uma disciplina. (…) A medicina não é constituída de tudo o que se pode dizer de verdadeiro sobre a doença; a botânica não pode ser definida pela soma de todas as verdades que concerne às plantas. (…) como qualquer outra disciplina são feitas tanto de erros como de verdades (…) A disciplina é um princípio de controle da produção do discurso”. (FOUCAULT, 2004, p. 30-36)

Assim, foi possível fazer a desconstrução de como alguns saberes se afirmam e se hierarquizam, perante outros. Passou a haver uma mudança de perspectiva histórica e das humanidades o que possibilitou a produção de várias interpretações sobre os mesmos contextos históricos, problemas sociais ou teórico-metodológicos, que pode ser conhecida pela leitura da massa de discursos disciplinares das Humanidades (sociológicos, antropológicos, filosóficos, políticos, interdisciplinares…) e, especialmente, de gêneros históricos que nos rodeia e que tem ajudado a historizar e relativizar a história.

Fonte:

http://problemasmetodologicos.wordpress.com/fazendo-humanidades-hoje/2-visoes-sobre-o-mesmo-contexto-historico/

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